Penumbra
- Como a sombra se forma, professora?
Uma lembrança. Lembrança de um tempo feliz, no qual eu, na verdade, não precisava pensar em de onde vem essa luz, o que é essa sombra, o porquê dessa penumbra. Presa nesse beco, com apenas um poste, distante, com uma luz tênue que luta com cada partícula de escuridão para tentar me alcançar. Me dar esperança. Talvez seja a esperança da partícula de luz que dê-lhe força, energia.
Mas teria eu raiva do beco? Não. Fui eu que cheguei até ele. Antes disso, fui eu quem o construiu. No meu pensamento. No meu relacionamento.
Eu tinha que gostar tanto assim das pessoas? Não, eu não sou perfeita, não amo o mundo inteiro. Aco q expliquei mal. Gosto exageradamente apenas das poucas pessoas dos meus relacionamentos. Sou diferente dos outros. Meus relacionamentos não se definem.
Para amizades, isso é perfeito. Elas são intensamente iluminadas, intensamente reais, intensamente diferentes. E são mais especiais.
Mas minha perdição é outra. Meu labirinto. Acontece quando perco a definição. Perco o referencial.- Quem apagou a luz? Por favor mamãe, eu ainda tenho medo do escuro. O escuro me deixa sozinha.- No escuro eu não vejo ninguém, não vejo meu amor.- Deixa eu dormir com a luz do poste acesa. - Eu te amo demais para ficar sob a luz intensa, sob a luz real, sob a luz diferente. Eu preciso de mais. Outra luz.
Mas você não me entendeu. Ainda me trata como amiga.- Mamãe, posso brincar lá fora com meu amor?- O poste está distante. Por que essa luz não pode ser real?
Estou no beco. Na penumbra. Na indefinição. Sozinha.- Por que você não brinca com as outras crianças, filha? Me deixa brincar com a minha tristeza, mãe.
Eu culpo você, meu querido. Ou não culpo. Você seria capaz de entender? Entender que meu sentimento muda? Mudou. Você é igual a mim. Suas amizades tem mais sentimento. Você ainda acha que sou apenas sua amiga. Essa mais-que-amizade-menos-que-amor é um nome grande demais. Mas não significa nada. eu quero mais luz.
Mas não posso ficar para sempre neste beco. Não vou deixar essa tristeza me consumir. Eu não quero a penumbra, me deixe ficar na escuridão. Pelo menos assim eu não vejo você.
-Mamãe, mamãe, olhe, na rua, os meninos estão brincando de atirar pedras nos postes. Olhe, olhe, acertaram um!
-Como se forma a penumbra, meu amor?
Escrito por guilherme às 19h55
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